Durante treze anos construí software para os outros.
Tenho uma agência —Agencia Digital Manager— e meu trabalho sempre foi esse: entender o problema de um cliente, traduzir em código e entregar funcionando. Fiz bem e gostei. Mas havia uma ideia que voltava de tempos em tempos, sempre a mesma: em algum momento eu queria construir algo meu. Não uma encomenda. Algo que me movesse de verdade.
O problema é que nunca encontrei esse algo. Nenhuma ideia me obcecava o suficiente para largar tudo e persegui-la. Até que a música se meteu no meio.
A coisa mais difícil que tentei aprender
Há três anos decidi estudar a sério. Primeiro DJ, depois produção musical, na academia Casa Sonido. Pensei que ia custar o normal —sou engenheiro, estou acostumado a aprender sistemas complexos— e me enganei por completo.
Produzir música foi a coisa mais difícil que já tive que aprender. E não por uma razão técnica. A música parece quase infinita: cada decisão abre dez decisões mais, não há uma resposta certa, e o ofício que separa uma ideia de algo que de fato soa bem é enorme. Eu podia passar uma tarde inteira perseguindo uma sensação que tinha clara na cabeça e nunca chegar.
Vinha de um mundo onde quase todo problema tem uma solução que você pode buscar, ler e aplicar. A produção musical não funciona assim. Ali é você, a sessão aberta e um monte de intuição que ainda não tem.
O momento em que as duas coisas se cruzaram
Pelo meu outro trabalho, eu já estava usando copilots de IA para programar. E um dia, enquanto escrevia código com um desses assistentes ao lado, aconteceu o óbvio: pensei "isto deveria existir dentro do Ableton".
Não um gerador que cospe uma música pronta. Isso não me interessava —e continua não interessando. O que imaginei foi um copilot. Algo que entenda sua sessão, que te acompanhe nas decisões, que te explique por que algo não está soando como você quer, que proponha e deixe você dizer sim ou não. O mesmo tipo de assistência que eu já tinha programando, mas para o ofício que mais estava me custando.
Dei a isso noventa por cento de chance de ser mais um dos meus delírios.
Três semanas trancado
A única forma que conheço de saber se uma ideia serve é construí-la. Então me tranquei três semanas, me obcequei, e tirei uma versão mínima funcional. O suficiente para olhar e decidir se valia a pena aterrissar a ideia completa ou arquivá-la com as demais.
Funcionou. Não perfeito, mas funcionou o suficiente para me dar o aval que eu estava buscando. Esse MVP é a origem do que hoje é o Deloy.
O que é o Deloy, em uma frase
O Deloy é um copilot de IA que vive dentro do Ableton Live e te acompanha enquanto você produz. Não substitui o produtor: o assiste. Entende sua música, propõe, e você mantém a autoria e a última palavra.
Essa última parte não é um detalhe de marketing. É a razão pela qual construí isto em vez de entrar na fila dos geradores de música com IA. O produtor continua sendo o autor. Sempre.
Por que escrevo isto
Estas "Notas do estúdio" vão ser isso: o que vou aprendendo no cruzamento entre a engenharia e a música, as decisões de produto que tomo e por quê, e o que acho que vem para a IA na música.
Escrevo de dentro para fora. Não do palanque de quem já sabe tudo, mas da mesa de quem está construindo e produzindo ao mesmo tempo, e erra nas duas coisas com frequência.
Se você produz música, se te interessa para onde vai a IA neste ofício, ou se simplesmente quer ver como se constrói uma ferramenta como esta do zero —fica. Isto está só começando.
— Cristian


